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Unimed Sul Capixaba

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24.03.2010

O Brasil é exportador de "água virtual"!

 

 

“A forma como usamos a terra e os recursos hídricos no passado
negligenciava os impactos ambientais impostos pela agricultura
intensiva. Esses custos não se refletem nos preços das commodities
alimentícias vendidas e compradas internacionalmente, e nem mesmo
nos preços dos alimentos no mercado interno. O Brasil não deveria
correr para satisfazer a demanda global por sua água, colocando
commodities no mercado mundial a preços que impossibilitem que o
ambiente das terras e dos recursos hídricos do Brasil seja usado de
modo sustentável”. Essas são as palavras do cientista britânico John
Anthony Allan, escritas por ele na entrevista que aceitou conceder,
por e-mail.

Conhecido no mundo inteiro por ter criado o conceito de água
virtual, explicado a seguir, Tony Allan identifica que as grandes
economias de água podem ser feitas no setor agrícola, onde os
volumes de água usados são vastos. “Os agricultores tomam conta de
toda a água verde. Junto com os engenheiros, eles tomam conta de
toda a água azul usada na agricultura irrigada. Junto, isto
representa 80% da água usada no mundo inteiro. Os agricultores detêm
a chave para a segurança da água – especialmente no Brasil”, alerta.

John Anthony Allan é professor no King’s College de Londres e na
Escola de Estudos Orientais e Africanos. Pioneiro em conceitos chave
para a compreensão e a divulgação das questões referentes à
problemática da água e à sua conexão com a agricultura, as mudanças
climáticas, a economia e a política, Tony Allan foi laureado com o
“Prêmio da Água de Estocolmo 2008” (2008 Stockholm Water Prize).

Confira a entrevista.

O senhor pode explicar o conceito de “água virtual”? Como fazer o
cálculo de quanto cada produto consume de água?

John Anthony Allan - Os alimentos e outras commodities necessitam de
água para serem produzidos. As commodities alimentícias possuem um
teor de água particularmente grande. Por exemplo, as seguintes
quantidades de água são necessárias para produzir 1 quilo de:

Trigo: 1.300 litros
Milho: 900
Arroz: 3.400
Carne de frango: 3.900
Carne de porco: 4.800
Carne de ovelha: 6.100
Carne de gado: 15.500
Algodão: 11.000

Ou a seguinte quantidade de litros de água é necessária para
produzir 1 unidade dos seguintes produtos:

Um litro de leite: 1.000 litros
Uma xícara de chá: 30
Uma xícara de café: 140
Uma folha de papel: 10
Uma fatia de pão: 40
Uma maçã: 70
Uma camiseta: 2.700

A água embutida nisso é chamada de água virtual.

Quando uma commodity é exportada de um país para outro, o país
importador se torna seguro em termos de água e alimentos contanto
que tenha uma economia que seja diversificada, e as pessoas tenham
meios de vida que lhes possibilitem comprar alimentos importados.
Das 210 economias existentes no mundo, ao menos 160 são economias
“importadoras” de água virtual. Há apenas cerca de 10 economias que
têm um excedente de água significativo que pode ser “exportado” em
forma virtual. Esses países incluem os Estados Unidos, o Canadá, a
Austrália, Argentina e França. O Brasil é, em potencial, o maior
“exportador” de água virtual do mundo.

Quais as maiores consequências ambientais para um país como o
Brasil, a partir desta consideração de ser o maior exportador de
água virtual do mundo?

John Anthony Allan - A forma como usamos a terra e os recursos
hídricos no passado negligenciava os impactos ambientais impostos
pela agricultura intensiva. Esses custos não se refletem nos preços
das commodities alimentícias vendidas e compradas
internacionalmente, e nem mesmo nos preços dos alimentos no mercado
interno.

O Brasil não deveria correr para satisfazer a demanda global por sua
água, colocando commodities no mercado mundial a preços que
impossibilitem que o ambiente das terras e dos recursos hídricos do
Brasil seja usado de modo sustentável.

Como podemos fazer para que essa “água virtual” seja contabilizada e
informada para os consumidores? O senhor acredita que isso ajudaria
na questão da economia da água?

John Anthony Allan - Será muito difícil fazer com que o valor da
água usada na produção de alimentos de origem vegetal e de carne se
reflita no preço dos alimentos. Nem os agricultores que produzem as
commodities, nem os comerciantes que as tornam disponíveis nas
economias importadoras de alimentos, nem seus clientes e
consumidores estão conscientes do teor de água embutida nelas e de
seu valor.

É improvável que a regulamentação cause algum impacto porque os
números sobre o teor de água são muito imprecisos e podem ser
facilmente questionados. Educar os consumidores é uma forma mais
provável de mudar seu comportamento e sua forma de consumo. Os
desafios políticos são imensos, especialmente numa economia de
mercado.

Qual a importância de se divulgar a “pegada da água” e que tipo de
ações deve ser pensado como resposta aos resultados apresentados por
essa “água virtual”?

John Anthony Allan - O conceito de “pegada de água” é uma forma
muito eficaz de contribuir para conscientizar os agricultores,
negociantes, supermercados e consumidores a respeito do teor de água
das commodities que eles produzem, vendem ou compram e consomem. A
comparação da pegada de água de uma dieta pesada à base de carne de
gado que consome 5 m3 de água por dia com a de um vegetariano que
consome 2,5 m3 de água por dia apresenta um resultado crasso.

Tem-se mostrado que uma dieta pesada à base de carne de gado e
outros produtos de origem animal é muito ruim para a saúde de um
indivíduo. Ela também é muito ruim para o meio ambiente aquático.

De que forma o tratamento de esgotos contribui para a economia da
água? Quanto se gasta de água para fazer um saneamento básico de
qualidade?

John Anthony Allan - A maior parte da água é usada para produzir
alimentos. Mais de 80% da água que um indivíduo ou uma economia
necessita são usados na produção de alimentos. 70% dessa água é água
verde – ou seja, água proveniente de chuva que é retida no solo. A
maior parte da produção agrícola do Brasil vem dessa água que está
no solo. Os outros 30% são constituídos de água azul ou água doce. A
água doce vem dos rios e do lençol freático. A água que usamos em
casa e para trabalhos que não a agricultura corresponde a entre 10 e
20% da água de que um indivíduo ou uma economia necessita.

A proporção depende de quão industrializada é a economia e de quão
elevado é o padrão de vida. Os efluentes líquidos e o esgoto são
gerados pelo uso doméstico e industrial de água. Mediante um
investimento considerável, os efluentes podem ser reutilizados. Mas
é preciso lembrar que esses efluentes são sempre uma pequena
proporção do total de água de que a sociedade necessita. É cada vez
mais possível e apropriado que as economias avançadas invistam na
reutilização de efluentes. Mas a decisão política de alocar verbas
para investir no tratamento de efluentes urbanos tem de ser
ponderada levando em conta o valor do investimento em outros
setores, como educação, saúde, comunicações, energia etc.

As grandes economias de água podem ser feitas no setor agrícola,
onde os volumes de água usados são vastos. Os agricultores tomam
conta de toda a água verde. Ao lado com os engenheiros, eles tomam
conta de toda a água azul usada na agricultura irrigada. Junto, isto
representa 80% da água usada no mundo inteiro. Os agricultores detêm
a chave para a segurança da água – especialmente no Brasil.

 

 

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