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Unimed Sul Capixaba

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26.05.2009

Preservar a Floresta pode salvar o Brasil de crise financeira!

 

 

Floresta pode ajudar a tirar o Brasil da crise financeira

 
País pode ser "melhor que a Suécia" se investir em uso sustentável, diz diretor do Bird

Claudio Angelo escreve para a “Folha de SP”:

O Brasil pode dar um salto de desenvolvimento se aproveitar a farra de gasto público ocasionada pela crise econômica global para investir em três setores: reforma na Previdência, inovação tecnológica e... preservação ambiental.

Quem sugere essa receita inusitada não é um ambientalista maluco, mas sim um dos caciques do Banco Mundial, o economista indiano Vinod Thomas, 59. Na semana passada, ele apresentou no Fórum Nacional, no Rio, uma análise sobre como os Brics (Brasil, China, Índia e Rússia) podem fazer frente às duas crises que se abatem ao mesmo tempo sobre o mundo, a financeira e a climática.

E disse que o Brasil investe pouco ou investe errado justamente na área em que teria mais vantagem sobre os outros países: o uso sustentável de seus recursos naturais.

Leia a seguir a entrevista que Thomas concedeu à Folha na última quinta-feira, num hotel em São Paulo:

- O sr. propõe que a resposta brasileira à crise seja baseada num tripé: reforma da Previdência, inovação tecnológica e uso da floresta. Como assim?

Esta é uma crise que pode ser desdobrada em duas. Uma delas é a crise financeira. Há uma resposta financeira sem precedentes a essa crise, na forma de expansão fiscal. A segunda crise é o aquecimento global. Se permitirmos que se instale plenamente, será várias vezes maior que a crise financeira. Os países têm agora uma oportunidade de investir a expansão fiscal de um jeito diferente. Muito raramente você consegue de 2% a 5% de aumento nos gastos fiscais em tempos normais. Hoje, essa expansão para 2009/2010, nos países do G20, é de 5% do PIB. Como isso será investido? Vai ser a mesma coisa de sempre?

- Há diferenças fundamentais entre ambas as crises, não? A financeira é um problema da economia, e o aquecimento global se deve a fatores que não entram normalmente nos cálculos econômicos.

A crise financeira que o Brasil, a Índia e a China enfrentam hoje é resultado da ação dos países industrializados. A crise do clima também é resultado primariamente da ação dos países industrializados no passado.

- De volta ao Brasil...

O Brasil está numa posição na qual pouquíssimos países estão hoje. Numa comparação entre os Brics, em três décadas, o Brasil teve taxas de crescimento modestas. A grande melhora do Brasil foi na distribuição de renda. Se a crise tivesse batido no país há dez anos, ela seria muito, muito mais grave. Por que então eu digo que não basta cuidar da crise financeira? Quando os países saírem desta crise, haverá mais ganhos de eficiência em toda parte. É possível que a geração de empregos seja atingida gravemente por causa disso. Então, para ser competitivo, criar empregos e lidar com os efeitos climáticos, o Brasil tem uma oportunidade de revisar sua estratégia de crescimento. O Brasil tem uma vantagem enorme em três áreas onde ele não está investindo ou está investindo mal. Veja a proporção entre gastos do governo em bens públicos divididos por bens privados, que incluem a Previdência. Bens públicos incluem infraestrutura, educação, ambiente e coisas assim. Essa razão deveria ser alta, não baixa. O Brasil tem a razão mais baixa entre os Brics. O governo investe mais em coisas privadas -subsídios a capital, crédito dirigido, previdência e gastos burocráticos - do que em coisas públicas. Em segundo lugar está a inovação. Em inovação, patentes ciência e tecnologia, o Brasil poderia ter uma vantagem, mas investe pouco.

- Como mudar?

O setor privado precisa embarcar, não o governo. O Brasil mostrou fagulhas na ciência e na indústria muito mais altas que na Índia. No setor aeronáutico, por exemplo. Mas é algo que não se dissemina, porque reflete a má distribuição da educação no passado. A terceira é a área na qual o Brasil tem a maior força no mundo: recursos naturais. Não há dúvida de que esses recursos serão cada vez mais valorizados nos próximos 50 anos. O Brasil tem a razão mais favorável de terra, água e floresta per capita do que qualquer outro país, então deveria ser uma área na qual o país estivesse investindo, não destruindo! Mas essa área tem uma dificuldade: ela depende da valoração global de recursos como o carbono de florestas. E o mercado para isso não está desenvolvido.

- A expressão "capital natural" pode se aplicar tanto a terras para agricultura quanto a florestas em pé. E, hoje, essas duas definições estão em conflito no Brasil.

Se investir em terra significar destruir floresta, você ganha de um lado e perde do outro. Se a coisa fica só na mão dos agentes privados locais e não há direitos de propriedade, esses agentes explorarão a terra e destruirão a floresta. Se há direitos de propriedade e a valoração reflete o que o Brasil pode ganhar do global ao longo dos anos, o valor de cortar a floresta fica reduzido. Há um cálculo comparando o valor de um hectare de pasto com um hectare de carbono: são US$ 200 contra US$ 10.000 por ano. A questão é: se é assim, por que não acontece? Um, porque os direitos de propriedade não são claros. Dois, há um conflito entre Estados e o país. Três, há um conflito entre o país e o global, porque o mercado global de commodities transfere imediatamente para o país o valor dos grãos e não reflete o valor da floresta.

- Preservar é trocar dinheiro certo e saldo comercial positivo por uma possibilidade futura, não?

Na velha mentalidade, você precisava eliminar a floresta para criar gado. Hoje nós temos evidências de que ambos podem coexistir em grandes extensões. Há exemplos na Amazônia colombiana. Mas, se a situação ficar como está, os ganhos futuros pela preservação da floresta serão muito reduzidos, e o Brasil jogará fora a maior carta que tem, que é a mesma que a Escandinávia tinha, para se desenvolver de maneira dramática.

- Como funcionou lá? O Brasil poderia virar uma grande Suécia?

O Brasil pode ser melhor que a Suécia, porque a Suécia tem uma fração da floresta que o Brasil tem. Mas o Brasil precisa de três coisas que a Escandinávia teve: um, práticas sustentáveis de extração de madeira; dois, investir os ganhos no aumento do valor agregado da cadeia produtiva. A Nokia começou como uma empresa madeireira. E três, uma mudança de pensamento, no sentido de achar que proteger florestas é desenvolvimento, em vez de pensar que você tem de eliminar os recursos naturais para se desenvolver.

- Então, por essa lógica, o Ministério do Meio Ambiente deveria ser o que tem mais verba, não um dos que têm menos...

Esse é o paradoxo. Recursos naturais, ambiente, água e até turismo deveriam ser áreas de reforço, onde você iria querer muito, muito mais investimento -tanto do governo quanto do setor privado.

- O sr. critica no seu artigo um "retrocesso" na mudança de uma lei para permitir a pavimentação da BR-319, que corta uma extensa área preservada na Amazônia, sem estudo de impacto ambiental. A infraestrutura no Brasil ainda é feita com a mentalidade antiga?

[pausa] Há espaço para fazer infraestrutura com sustentabilidade muito maior. Mas a questão é: qual país faz do jeito certo? A China faz? A Índia faz? Ninguém faz! É por isso que eu uso o termo "liderança": o Brasil poderia ser líder em combinar infraestrutura com preservação ambiental.

- Falta visão ao governo?

Vamos pular o governo! [risos] O que você tem a ganhar com mais cuidado ambiental no Brasil é muito mais do que na China ou na Índia. O planejamento ambiental faz mais diferença para o Brasil do que para esses países.

- Pode dar um exemplo?

Maiores esforços para combinar gado e floresta, por exemplo. O Brasil tem muito a ganhar. Na Índia e na China não sobrou muita coisa.
(Folha de SP, 24/5)
Estabilidade atrai investidor externo para plantio de florestas
 
Grau de investimento despertou interesse de fundos insatisfeitos com rentabilidade baixa em outros mercados

Paulo Justus escreve para “O Estado de SP”:

O investimento estrangeiro em florestas sempre foi tímido no Brasil. Nos anos 1990, uma ou outra iniciativa de capital de risco chegou a apostar no manejo florestal sustentável na Amazônia. Mas, nos últimos anos, o País começou a atrair aportes de grandes fundos florestais interessados em investimentos de longo prazo.

Esses investidores querem distância da Amazônia e do risco que a região oferece. Passaram a investir em florestas plantadas principalmente depois da conquista da maior estabilidade econômica do Brasil nos últimos anos, apesar de já conhecerem o grande potencial do País em termos de produtividade.

"Após o investment grade, se abriu um leque para os fundos americanos que antes, por estatuto, não poderiam investir aqui", diz John Forgach, presidente do Fundo Equator, que investe em projetos ambientais.

A nova tendência começou a se desenhar a partir de 2001, quando a Global Forest Partners (GFP) iniciou o investimento no Brasil com a compra de 60 mil hectares de pinus no Paraná. "Esse é até hoje um dos maiores maciços florestais sob propriedade de um fundo no Brasil", diz o economista da consultoria florestal Consufor, Ederson Almeida.

Em 2002, foi a vez da Hancock Timber Resource Group, outra gigante norte-americana, vir para o País. De 2005 a 2008, outros oito fundos internacionais fizeram o mesmo caminho. De acordo com levantamento da Consufor, eles investiram R$ 2 bilhões no Brasil até o ano passado. O número ainda é tímido, se comparado ao que elas têm investido em outros países.

Neste ano, a única negociação conhecida foi a compra de 10 mil hectares, em Mato Grosso, pela Phaunos Timber Fund Limited. O investimento total no projeto deve chegar a US$ 150 milhões. Até o fim de abril, o fundo havia desembolsado US$ 47,5 milhões.

O interesse internacional despertou a atenção de fundos brasileiros. A Claritas Investimentos lançou em janeiro o fundo Floresta Brasil, de R$ 101 milhões, de olho num cenário de juros em queda.

A expectativa é que, com a queda da taxa básica de juros no Brasil, os fundos florestais se tornem uma alternativa para os fundos de pensão e grandes investidores do País. "As nossas projeções de taxa de retorno vão de 10% a 20%, significativamente superiores à Selic (taxa básica de juros)" diz o gestor do fundo, Marcelo Sales.

Esses fundos captam recursos para aplicação em ativos florestais. O financiamento geralmente se encaixa na estratégia de baixo risco de fundos familiares ou formados por doações a universidades, da Europa e dos Estados Unidos. São projetos de longo prazo porque os ciclos de maturação das florestas são longos.

No Brasil, o setor tem sido puxado por causa da queda da rentabilidade das florestas nos países em que os fundos já estão presentes. Segundo Forgach, o Brasil apresenta um retorno maior e possui terras disponíveis para a expansão. "O Brasil está sendo promovido a vácuo, por falta de opções no mundo", diz.

O investimento ainda encontra alguns problemas, como a burocracia para abrir novas empresas no País. Isso porque os aportes precisam ser feitos por uma empresa ou um fundo de investimento em participações estabelecido no Brasil.

"A demora de pelo menos uns dois meses para se abrir uma empresa - o que, para um estrangeiro, é o fim do mundo -, demonstra que ainda estamos atrasados", diz o advogado especialista em investimento florestal Aldo de Cresci.

Mas, uma vez estabelecida a empresa, o gerenciamento dos investimentos fica fácil. Cresci elogia o sistema de fluxo de capital brasileiro. "Tem uma dificuldade burocrática para iniciar, mas depois o retorno funciona muito bem."

Fundos querem fornecer madeira para fabricantes de papel e celulose

As maiores proprietárias de florestas no Brasil receberam um grande choque no ano passado, com a eclosão da crise financeira. As empresas do setor de papel e celulose tiveram perdas bilionárias, o que trouxe oportunidades de aquisições de parte dessas florestas por fundos de investimentos.

A intenção dos fundos é passar a fornecer madeira para as fabricantes de papel e celulose, algo que era mais difícil de ocorrer no passado, quando as empresas estavam capitalizadas.

"Estamos num momento em que vários desses grandes consumidores procuram um contrato de suprimento de longo prazo. Essa junção não havia ocorrido até agora", diz o diretor da gestora de florestas Brazil Timber, Henrique Aretz.

De acordo com John Forgach, presidente do Fundo Quator, de investimentos em projetos ambientais, algumas empresas do setor venderam de 2% a 7% de seus ativos florestais como forma de se capitalizar para enfrentar a crise.

Para o diretor de investimento da gestora florestal RMS, Fábio Brun, apareceram mais oportunidades. "Comprar de uma Aracruz era impossível, agora eles já estão dispostos a discutir. A realização do negócio é outra história", diz.

Potencialidade

As fabricantes de papel e celulose possuem 1,7 milhão de hectares de florestas plantadas no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira de Celulose e Papel (Bracelpa).

As indústrias estrangeiras do setor também são fortemente atraídas pelo desempenho das florestas brasileiras. "Há muita obsolescência nesse setor e é claro que esses países vão buscar os polos de maior produtividade", comenta a presidente da Bracelpa, Elizabeth de Carvalhaes.

Exemplo dessa mudança na indústria da Europa para o continente sul-americano é o investimento que a finlandesa Stora Enso anunciou no Uruguai, no início da semana passada. A empresa adquiriu 130 mil hectares de floresta plantada em parceria com a chilena Arauco.

O presidente da Stora Enso na América Latina, Otávio Pontes, diz que o Brasil é o país com maior potencialidade de produção na América Latina. "Existe uma contínua evolução na produtividade brasileira, graças a evolução da adaptação de espécies e da pesquisa no setor."

Apesar das investidas, o especialista em papel e celulose da consultoria Korn Ferry, Jay Millen, diz que as empresas do setor não devem abrir mão das florestas, um de seus principais ativos. "No fim do dia, os valores estão nos recursos palpáveis, na terra e nas árvores."
(O Estado de SP, 25/5)

 

 

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