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Unimed Sul Capixaba

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18.09.2013

Vamos salvar a Ferrovia das Montanhas !

 

 

Leopoldina: um trem que vai deixar saudades

Mais do que ajudar no desenvolvimento das regiões Sul e Serrana do Estado, a ferrovia é uma importante parte da história dessa região

GUSTAVO RIBEIRO | agazetasul@redegazeta.com.br

 

Foto: Vitor Jubini
 Vitor Jubini
A linha férrea passa por várias cidades, entre elas, Vargem Alta. Alguns moradores trabalharam na ferrovia e muitos se sensibilizam pelo fim da ferrovia

Responsável pelo desenvolvimento econômico de boa parte do Espírito Santo e Rio de Janeiro, a antiga Estrada de Ferro Leopoldina se vê na iminência de desaparecer. Prefeitos e representantes políticos do Estado estão na luta para que não somente os trilhos permaneçam no lugar, mas para que a história não se perca. E quem acompanhou de perto os tempos áureos da ferrovia, lamenta o seu possível fim.

Construída com o intuito de transportar o café produzido na região, em meados do século XIX, e mais tarde transportar passageiros, a ferrovia foi responsável pelo desenvolvimento de várias cidades da região Sul e Serrana do Estado. Hoje ela é administrada pela Rodovia Centro-Atlântica (FCA), que teve recentemente a autorização da Agência Nacional de Transpostes Terrestres (ANTT) para desativar o trecho ferroviário e retirar os trilhos da ferrovia.

Vida nos trilhos

Foto: Vitor Jubini
 Vitor Jubini
Seu José tem hoje 81 anos e dedicou uma boa parte de sua vida ao trabalho na estrada de ferro. Ele diz que voltaria a trabalhar, se pudesse
A família do aposentado Ivo Paradella, de 74 anos e que reside em Vargem Alta, na Região Serrana do Estado, sempre trabalhou na ferrovia. O pai, e outros dois irmãos ganharam a vida nos trilhos. 

Durante 30 anos ele ocupou a função de agente de estação. O serviço lhe custou, em parte, o contato com os filhos. Mas apesar das dificuldades, Ivo lembra emocionado de seus anos no serviço.

“Somente no final da minha carreira me tornei chefe de estação. Tinha que tomar conta do parque, dos vagões e toda a movimentação. Não era fácil, até comida azeda eu comi. Lá, a gente só tinha hora fixa para entrar. Mas eu gostava do que fazia”, diz o aposentado.

Ele ainda garante que as máquinas eram muito mais econômicas que os meios de transportes atuais. “Essas máquinas (trens) eram uma economia, usavam diesel e eletricidade”, lembra, saudosista.

Depois de aposentado, ele a esposa, Nilza Lougon Paradella, de 74 anos, mudaram-se de Cachoeiro de Itapemirim, onde o irmão mais velho de Ivo, José Paradella Netto, de 81 anos, hoje reside. E o senhor José até hoje dedica a sua vida à ferrovia. Ele é o responsável pelo Museu Ferroviário de Cachoeiro, e gosta de falar a todos que por lá passam sobre a importância da linha férrea no desenvolvimento da região e na sua história de vida.

Foto: Vitor Jubini
 Vitor Jubini
Ivo Paradella trabalhou durante 30 anos na ferrovia. Hoje, ele diz que não gosta de imaginar o fim dos trilhos. "Eu me criei dentro da linha e antes meu pai trabalhou muito nela"
José trabalhou tanto em Cachoeiro de Itapemirim, quanto em Petrópolis (RJ). Ele acredita que se as linhas ainda existissem como antes, ele continuaria a dedicar sua vida ao trabalho na ferrovia.











“Se voltassem e eu tivesse resistência, trabalharia de novo. Eu tinha apenas uma folga por semana, mas eu gostava”, contou. E sobre a possível retirada dos trilhos, acha que não é necessária. “Se o governo pensasse melhor é mais fácil manterem essa estrada de ferro, do que construir outra”, diz José.

Já seu irmão, Ivo, não gosta de falar sobre a possibilidade do fim da linha. “Não gosto nem de falar, me criei dentro da linha e antes meu pai trabalhou muito nela”, disse emocionado, o aposentado.

Sim, existe uma luz no fim do túnel

Foto: Vitor Jubini
 Vitor Jubini
O prefeito de Vargem Alta, João Bosco Dias, se uniu a outros prefeitos da região para tentar salvar a ferrovia. "Nós não vamos aceitar de maneira nenhuma a retirada dos trilhos"
O prefeito de Vargem Alta, João Bosco Dias, que é o representante dos nove municípios que compõe um consórcio criado para manter a ferrovia acredita que a saída para evitar a retirada dos trilhos seja o trabalho conjunto. Ele faz reuniões constantes com os outros prefeitos, com o governo do Estado e representantes da ANTT.

“Nós não vamos aceitar de maneira alguma a retirada dos trilhos. Fizemos uma reunião há dias com os representantes que integram a ferrovia, e depois fomos para Brasília com mais cinco prefeitos. O resultado foi positivo, pois a ANTT modificou a resolução e deu a oportunidade de ouvir a sociedade”, disse o prefeito.

A intenção do grupo formado pelos prefeitos é dar à ferrovia um maior potencial turístico. “A Ferrovia Litorânea só vai ficar pronta em cinco anos, mas não queremos competir, dá para ter as duas. É o que queremos”. Bosco ainda explicou que projetos para manter a ferrovia sempre existiram, mas que com a medida a ANTT houve uma mobilização de todos os municípios em busca de uma única solução.

“Nos dentro de 15 dias vamos retornar a Brasília, com o projeto de viabilidade econômica da linha. Vamos mostrar que ela é viável. A primeira etapa é não deixar retirar os trilhos e depois é o que estamos fazendo, a viabilidade econômica e turística e até mesmo de pessoas”, garantiu o prefeito.

Vida paralela

Foto: Vitor Jubini
 Vitor Jubini
Arquilino Altoé é morador do distrito de Boa Esperança e acompanhou os anos áureos e a queda da ferrovia do portão de sua casa.
A antiga Ferrovia Leopoldina foi o principal meio de transporte na região durante muitos anos. E os tipos de trens que circularam por ela determinavam a classe social dos passageiros. Mesmo sem nunca 

ter trabalhado na ferrovia, o aposentado Aquilino Altoé, 86, viu do portão de sua casa, em Boa Esperança, interior de Vargem Alta, o sucesso e a queda da Linha.

“Quando vim para cá não havia ônibus, então usávamos a ferrovia. E tinham os trens que eram dos pobres e o expresso dos ricos. Alguns traziam cargas, e sempre embarcava café, galinha, banana, tudo”, disse. Perto de sua casa resiste ao tempo a “paradinha”, uma espécie de ponto para os trens. 

“Ela foi construídas pelos padres salesianos para os pais de alunos da escola virem visitar seus filhos”, conta.

Parte das terras onde está o colégio do Salesiano Anchieta – que futuramente terá cursos tecnológicos e de graduação oferecidos pelo Estado – foi doado pelo avô de Aquilino, com a condição de preservar a cachoeira. O colégio atualmente está desativado, entretanto até o deputado estadual Theodorico Ferraço estudou nele.

 

ENTE
NDA

Retirada
No dia 5 de julho deste ano, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) publicou no Diário Oficial da União a resolução que previa a desativação de 13 trechos da ferrovia, sendo dois deles no Espírito Santo.

Nova Linha
O motivo da desativação dos trechos no Espírito Santo é a construção da rodovia Litorânea EF-118, 
que ligará Vila Velha ao Rio de Janeiro. A criação da nova ferrovia faz parte do Programa Integrado de Logística.

Consórcio 
Os prefeitos das cidades de Cachoeiro de Itapemirim, Viana, Marechal Floriano, Domingos Martins, Alfredo Chaves, Vargem Alta, Atílio Vivácqua, Muqui e Mimoso do Sul, por onde a ferrovia passa, se reuniram para formar um consórcio. O pedido é pela continuação da ferrovia.

ANTT

O órgão mudou a resolução após reunião com alguns prefeitos e políticos, realizada no dia 27 de agosto. Ficou determinado que não poderá haver retirada dos trilhos sem que a comunidade seja ouvida. Eles ainda pediram um projeto de viabilidade econômica, que será feito pelo Ifes.
 

 

 

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