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Unimed Sul Capixaba

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23.03.2013

August Saint Hilaire passou em Ibitipoca!

 

 

AUGUST FRANÇOIS CESAR PROVENÇAL DE SAINT HILAIRE
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Apesar das duas edições destes preciosos originais, continua geralmente muito pouco conhecida a narrativa desta parte das grandes jornadas do ilustre botânico francês, a quem o Brasil tanto deve, efetuadas em nosso país. Veio a lume, aliás, em publicação póstuma divulgada trinta e quatro anos após o passamento do autor pelo Sr. R. de Dreuzy. Nada podemos dizer sobre as relações deste editor com o sábio ilustre, a quem se de vem as tão célebres narrativas de viagens realizadas em nossa terra de 1816 a 1822 e livros absolutamente notáveis pela valia científica e a probidade dos informes, como não há quem o ignore.

Falecendo em 1853 deixou Saint-Hilaire volumoso manuscrito inédito; a Viagem ao Rio Grande do Sul, livro muito mais raro que as suas de mais obras. Negocia-se hoje por preços incomparavelmente mais altos do que os das outras Viagens. Coisa que geralmente chama a atenção dos leitores é a fidelidade com que o grande botânico soube gravar as palavras portuguesas, prova de quanto chegou a conhecer bem a nossa língua. A Viagem ao Rio Grande do Sul e a Segunda Viagem a São Paulo, porém, trazem os nomes próprios e os topônimos extraordinariamente estropiados. Isto nos faz crer que o autor tivesse má letra e seu revisor, o Sr. de Dreuzy, ou alguém por ele, nada entendesse de português. Assim não é crível que Saint-Hilaire haja escrito caxuro por cachorro, corgofondo, Pinhamongaba, Jacurahy, Nossa Senhora da Apparanda! (Aparecida), e uma infinidade de outras coisas, como ainda, São João de Manque em lugar de São João Marcos, etc., etc.

O senhor de Dreuzy dedicou a publicação ao Conde d’Eu pelo fato de ser este príncipe o esposo da herdeira do trono brasileiro, declara-o no prefácio. Do Rio Grande do Sul regressou Saint-Hilaire, por mar, ao Rio de Janeiro, em fins de agosto de 1821. Notou então que as suas coleções se achavam em grande parte estragadas pelas traças; sobretudo o herbário. Os trabalhos de taxidermia fizeram-lhe muito mal à saúde e o clima carioca o deprimiu muito, afirma-o. Assim, para fazer novas coleções, e recolher o material deixado em São Paulo, ao seguir para Santa Catarina e Rio Grande o Sul, entendeu partir para a
capital paulista, saindo do Rio, a 29 de janeiro de 1822, com os dois criados, seus velhos companheiros, Firmiano e Laruotte, dois índios montados e um tropeiro. Na primeira viagem a São Paulo, viera de Goiás depois de atravessar o Triângulo Mineiro.

Na segunda resolveu ir do Rio de Janeiro a Minas, passando pelo registro do Rio Preto, Barbacena, São João d’El-Rei, Aiuruoca, Baependi e Pouso Alto, para depois, descendo a Mantiqueira, chegar a Cachoeira e Guaratinguetá. Daí tomaria o rumo de Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes e, afinal, São Paulo. Na viagem de volta foi-lhe este o itinerário: Mogi das Cruzes, Nossa Senhora da Escada, Jacareí, Taubaté. Desta última localidade rumou em direção à capital brasileira, por Aparecida, Guaratinguetá, Areias, Bananal, São João Marcos, Itaguaí e Santa Cruz. É muito interessante a série destes depoimentos sempre tão inteligentes e sobretudo sinceros... Trazem valioso contingente de informes sobre a mais importante região brasileira a que se estende entre as duas maiores cidades do país. Estamos certos de que o nosso público amante dos assuntos nacionais apreciará realmente este relato probo e elevado, saído da pena do grande viajante a cuja memória devem os brasileiros muitos motivos de verdadeira gratidão.

AFONSO DE E. TAUNAY

Trechos de Saint-Hilaire em Ibitipoca:

"À vista dos belos campos que se apresentaram hoje aos meus olhares, não pude deixar de sentir verdadeiro aperto de coração pensando que logo os deixarei para sempre. Todos estes dias vivi na mais penosa incerteza. Sinto muito bem, que não posso ficar para sempre no Brasil, mas desejaria ao menos gozar, mais tempo, do prazer de admirar este belo País; quereria poder despedir-me de meus amigos, dos bons amigos dos arredores de Vila Rica; entretanto também sinto que se fizer esta viagem ser-me-á difícil partir ainda este ano, e se espero poucas satisfações na minha volta à França, não posso calar uma série de obrigações que para lá me chamam."

"Depois de mais ou menos uma légua, chega mos à vila de Ibitipoca, situada num alto. Embora cabeça de distrito que se estende até Rio Preto, consta esta vila de algumas casinholas apenas, e do pior aspecto. Parei numa delas, onde vive, amontoada, numerosa família de mulatos, e perguntei onde morava a autoridade local. Responderam-me que numa fazenda situada a légua e meia daqui; pedi então ao homem, a quem me dirigira, que me indicasse o caminho para a fazenda do Tanque, que sabia ser a mais próxima da serra. Este homem não só me indicou o caminho com a polidez inata aos mineiros como quis servir-me de guia durante alguns instantes. Depois de seguir uma estrada que percorre um vale coberto de mata, cheguei afinal ao Tanque. Pedi hospitalidade a um moço que me disse estar o dono da casa ausente.
Poderia, eu contudo, aqui passar a noite. Apressou-se em arranjar os diferentes objetos que ocupavam a sala, e ali foram descarregados os meus trastes. Logo depois chegaram Laruotte e José, que deixara na cidade para que compras sem algumas provisões. O último disse-me que nossa chegada causara alarme à cidade. Ali se ouvira falar dos acontecimentos do Rio de Janeiro, e vendo o povo passar um homem com mulas carrega das de malas, concluiu que devia ser algum personagem de vulto, encarregado de fazer recrutamento.
A fazenda do Tanque parece ter tido outrora alguma importância, mas tornou-se a prioridade de alguns mulatos que parecem muito pobres e cai atualmente em ruínas."

" Fazenda do Tanque, 15 de fevereiro – Fui hoje herborizar na serra de Ibitipoca, guiado por duas crianças da fazenda do Tanque. À base das montanhas ficam bosques espessos que atravessamos subindo insensivelmente; de repente encontramo-nos em imenso pasto cujo terreno é uma mistura de areia e terras escuras. Desde o momento em que ali pus o pé, achei no meio das gramíneas plantas que pertencem exclusivamente aos campos montanhosos, melastomáceas e uma apocinácea, etc.
A serra da Ibitipoca não é pico isolado, e sim contraforte proeminente de cadeia que atravessei desde o Rio de Janeiro até aqui. Pode ter uma légua de comprimento e apresenta partes mais elevadas, outras menos, vales, barrocas, picos e pequenas partes planas. As encostas são raramente muito íngremes; os pontos altos representam geralmente cumes arredondados e os rochedos mostram-se bastante raros. O fundo e barrocas estão geralmente cobertos de arbustos, mas poucos capões se vêem de mato encorpado; quase toda a montanha está coberta de pastos, quase sempre excelentes.
Seguimos um caminho que sobe, a pouco e pouco, e chegamos a um regato chamado rio do Salto. É ele, explicaram-me, que, sob o nome de rio Brumado, rega o vale onde fica situada a fazenda deste nome e vai enfim avolumar o rio do Peixe.
Corre o rio do Salto com rapidez numa barroca estreita e, em vários lugares, rochedos a pique o margeiam. Num deles, de cor esbranquiçada, ficam inúmeras manchas pretas formadas, tanto quanto pude avaliar, por expansões liquenóides. Lembra uma e bastante a figura de um eremita embuçado no hábito, e segurando um livro. Dele fizeram um Santo Antônio que é objeto de veneração em toda a zona. Todos quantos perderam animais na serra vão rezar o terço diante da imagem e os encontram infalivelmente; outros há que, em romaria e de vela em punho, visitam o rochedo onde está representado o santo e ali fazem penitência.
A pequena distância, deste lugar chegamos a um casebre grosseiramente construído de taipa, coberto de sapé, e cujas entradas são portas es treitas fechadas com couro. Se esta choupana apenas revela a indigência, sua situação foi bem es colhida; construída como está num fundo e protegida do vento pelas colinas vizinhas. De um lado um grande bosque, do outro um riacho, cuja água é excelente e faz mover pequeno monjolo.
Ao chegar fui re ce bi do por uma mulata vestida de saia e camisa de algodão muito sujas. Grande quantidade de bonitas criancinhas, trajadas do modo mais nobre, a rodeavam. Pareceu a mulher um tanto assustada com a minha visita, mas logo se acalmou; perguntei-lhe se o marido poderia levar-me às partes mais elevadas da montanha. Respondeu-me que estava no mato mas voltaria logo. Poderia eu falar-lhe pessoalmente. Enquanto esperava pus-me a conversar com a dona da casa e perguntei-lhe se não se aborrecia, só, no meio daquelas montanhas.
Disse-me que ali estava, havia apenas um ano, e nunca sentira um único momento de tédio. Os trabalhos caseiros, as galinhas e os animais domésticos tomam-lhe o tempo todo. Havia, além disto, sempre algo de novo em seu pequeno lar. Era preciso ora plantar, ora colher; nasciam-lhe criações; o marido e o filho mais velho saíam para caçar e assim traziam ora um porco-do-mato, cuja carne, assada, comiam todos, ora um gato-selvagem. E com efeito mostrou-me muitas peles já curtidas de vários destes animais. A esta altura chegou o marido que consentiu muito prazerosamente em ser vir-me de guia. Antes de sairmos ofereceu-me queijo, farinha e bananas, frutos que só se podem colher à raiz da serra. Enquanto comíamos, continuou a conversa; meu hospedeiro contou-me que morara muito tempo na vila do Rio Preto.
Achando este lugar vantajoso para estabelecer-se, porém, ali passara um ano, só, para construir a choupana e formar plantação. Neste lapso de tempo matara dez onças e as sim tornara os pastos mais seguros. Afinal para lá transportara a mulher e os filhos.
Depois de acabado o almoço partimos todos a cavalo e subimos ao Pião, nome que se dá ao cume menos arredondado e mais alto de toda a serra. Deste pico se descortina horizonte mais extenso do que o da serra de S. Gabriel. Quando o tempo está claro avistam-se até as montanhas dos arredores do Rio de Janeiro. Atrás do Pião, e em grande extensão, acha-se a montanha absolutamente cortada a pique. É difícil reprimir uma espécie de terror, quando, adiantando-se alguém até o limite permitido pela prudência, descobre a imensa profundidade, espessas florestas escondi das em sombrios vales.
Sob o Pião abre-se um abismo, cuja profundeza não pode o olho calcular, mas que corresponde, dizem, e muito distante dali, a outra barroca muito mais baixa.
Os pastos que cercam o monte e, em geral, todos os que cobrem aquelas montanhas são de ótima qualidade e poderiam alimentar prodigiosa quantidade de animais. No entanto só ser vem aos de meu guia e de alguns outros vizinhos, tão pobres quanto ele.
Ao nos afastarmos do Pião, seguimos durante algum tempo as bordas escarpadas da montanha. Atravessamos, em seguida, um riacho à margem do qual cresce singular melastomácea (cujas flores são vermelho-escuras); cortamos terreno pantanoso e depois uma encosta cujas pastagens haviam sido queimadas recentemente e onde cresce em abundância uma Velosia, cujas hastes e galhos tortuosos e enfezados, enegrecidos pelo fogo, terminam num tufo de folhas rígidas do meio das quais se alçam cinco ou seis flores de belo azul, e tão grandes quanto lírios. Nesta excursão apanhei prodigioso número de espécies de plantas. A maioria porém já as havia geralmente colhido, em outras montanhas desta capitania.
Meu guia pareceu-me principiar a enfadar-se de sede ter a cada momento a fim de que eu pudesse arranjar minhas flore".


 

 

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